Ou a) As nossas acções estão causalmente determinadas, ou b) As nossa acções não estão causalmente determinadas.
Se a), então as nossas acções são causadas por acontecimentos anteriores e remotos, sobre os quais não temos qualquer tipo de responsabilidade.
Se b), então nenhum acontecimento anterior as causou e as nossas acções são acontecimentos aleatórios, sobre os quais também não temos qualquer responsabilidade. Será que nunca podemos ser responsabilizados por aquilo que fazemos?
Sábado, Junho 09, 2007
Dilema do Determinismo - Waking Life
Sexta-feira, Junho 01, 2007
Pertencer ao Tempo

«(...) todos os dias de uma vida sem lustro, o tempo carrega connosco. Mas um momento chega sempre, em que somos nós a ter de carregá-lo. Vivemos sobre o futuro: «amanhã», «mais tarde», «quando tivermos uma boa situação», «com a idade hás-de compreender». (...) Um dia vem, no entanto, e o homem constata ou diz que tem trinta anos. Afirma assim a sua juventude. Mas, ao mesmo tempo situa-se em relação ao tempo. Toma aí o seu lugar. Reconhece que está num certo momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Pertence ao tempo, e reconhece nesse horror que o empolga o seu pior inimigo.»
Albert Camus, O Mito de Sísifo
Sábado, Novembro 25, 2006
Cidades Invisíveis
A cidade de Sofrónia compõe-se de duas meias cidades. Numa fica a grande montanha russa de íngremes bossas, o carrossel com a sua auréola de correntes, a roda das gaiolas giratórias, o poço da morte com os motociclistas de cabeça para baixo, a cúpula do circo com o cacho dos trapézios a pender no meio. A outra meia cidade é de pedra e mármore e cimento, com o banco, os opiários, os prédios, o matadouro, a escola e tudo o resto. Uma das meias cidades está fixa, a outra é provisória e quando acaba o tempo da sua estadia despregam-na, desmontam-na e levam-na dali para fora, para a enxertar nos terrenos vagos de outra meia cidade.
Assim, todos os anos chega o dia em que os operários destacam os frontões de mármore, deitam abaixo as paredes de pedra, os pilares de cimento, desmontam o ministério, o monumento, as docas, a refinaria de petróleo, o hospital, e carregam-nos em reboques de grandes camiões para seguirem de praça em praça o itinerário de todos os anos. Aqui fica a meia Sofrónia das barracas de tiro ao alvo e dos carrosséis, com o grito suspenso da naveta da montanha russa do avesso, e começa a contar quantos meses, quantos dias deverá aguardar antes que retorne a caravana e retorne a vida inteira.
Assim, todos os anos chega o dia em que os operários destacam os frontões de mármore, deitam abaixo as paredes de pedra, os pilares de cimento, desmontam o ministério, o monumento, as docas, a refinaria de petróleo, o hospital, e carregam-nos em reboques de grandes camiões para seguirem de praça em praça o itinerário de todos os anos. Aqui fica a meia Sofrónia das barracas de tiro ao alvo e dos carrosséis, com o grito suspenso da naveta da montanha russa do avesso, e começa a contar quantos meses, quantos dias deverá aguardar antes que retorne a caravana e retorne a vida inteira.
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
Domingo, Novembro 19, 2006
Retiro Espiritual
Uma Árvore. Espelho vivo da condição humana. Ao germinar o céu aberto alimenta sonhos de eternidade. Crescemos. Crescemos em direcção a esse horizonte sem limites. Azul. Imenso. Depois a noite pinta-o de escuro. Um sorriso. Milhares de pontos cintilantes acendem-nos um sorriso. Para lá do espanto pálido da Lua ansiamos ainda poder tocar essas orbes. Ir mais além. Ramificações que se estendem para lá de nós. Infinito? Nesse momento o peso da terra torna-se insuportável. Poder voar. O peso da raiz debaixo da terra torna-se insuportável. Como se um apelo nos puxasse da pedra que nos sustenta.
Uma Casa. As pedras, as árvores, os sons que ecoam à passagem de um vento profundo, que sussurrando, nos conta o segredo dessas vozes de outrora, vozes que se faziam ouvir muito antes de nós. Aqui se encontra o retiro espiritual perfeito. Faz-nos despertar para os uivos primordiais de uma natureza que nos precede e ultrapassa, e que simultaneamente apenas vive no pequeno instante que cabe entre o precede e o ultrapassa, isto é, no momento em que nos trespassa. As pedras, o frio das pedras, as árvores, o cheiro das árvores, a casa, os sons, as cores, as linhas da casa, apenas respiram no momento em que as vemos. As folhas, os ramos, as gotas da chuva apenas dançam porque existimos. As linhas da casa ensinam uma verdade tão antiga como o tempo: Não há rupturas, apenas transfigurações.
E num instante tudo parece fazer sentido de novo, porque a eternidade não se encontra para lá das nuvens, mas do lado de cá. E é nestes pequenos momentos em que nos sentimos vitoriosos. Momentos em que sentimos que roubamos o fogo aos Deuses reclamando o espaço infinito para tamanho sentir.
Obrigado.
Uma Casa. As pedras, as árvores, os sons que ecoam à passagem de um vento profundo, que sussurrando, nos conta o segredo dessas vozes de outrora, vozes que se faziam ouvir muito antes de nós. Aqui se encontra o retiro espiritual perfeito. Faz-nos despertar para os uivos primordiais de uma natureza que nos precede e ultrapassa, e que simultaneamente apenas vive no pequeno instante que cabe entre o precede e o ultrapassa, isto é, no momento em que nos trespassa. As pedras, o frio das pedras, as árvores, o cheiro das árvores, a casa, os sons, as cores, as linhas da casa, apenas respiram no momento em que as vemos. As folhas, os ramos, as gotas da chuva apenas dançam porque existimos. As linhas da casa ensinam uma verdade tão antiga como o tempo: Não há rupturas, apenas transfigurações.
E num instante tudo parece fazer sentido de novo, porque a eternidade não se encontra para lá das nuvens, mas do lado de cá. E é nestes pequenos momentos em que nos sentimos vitoriosos. Momentos em que sentimos que roubamos o fogo aos Deuses reclamando o espaço infinito para tamanho sentir.
Obrigado.
Sexta-feira, Setembro 22, 2006
Luz Solar

nas paredes, esse branco matizado por uma luz solar intensa
e eu aqui, trancado neste vidro fosco, nebelina de madrugada desabrochar.
paisagem distorcida pelo tecer da chuva que arde por dentro da pele,
lagrimas à flor da estrada, um sorriso esmagado de absoluto.
sanguessugas roendo as entranhas,
sinto o ar coagular à minha volta,
o mundo petrificar em redor,
geada que atrofia o movimento,
os músculos presos por entre lâminas que me dissecam vivo.
acordo e encontro-me enrolado dentro desta teia,
para não mais sentir que a luz das estrelas é o prémio q mais cedo ou mais tarde irei reclamar...
Luis V.
Quarta-feira, Agosto 02, 2006
A tua ausência
A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar
José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão
Foste eterna até ao fim
Devagar, o tempo transforma tudo em tempo.o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgávamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
e idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão
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