sexta-feira, setembro 22, 2006

Luz Solar



nas paredes, esse branco matizado por uma luz solar intensa
e eu aqui, trancado neste vidro fosco, nebelina de madrugada desabrochar.
paisagem distorcida pelo tecer da chuva que arde por dentro da pele,
lagrimas à flor da estrada, um sorriso esmagado de absoluto.
sanguessugas roendo as entranhas,
sinto o ar coagular à minha volta,
o mundo petrificar em redor,
geada que atrofia o movimento,
os músculos presos por entre lâminas que me dissecam vivo.
acordo e encontro-me enrolado dentro desta teia,
para não mais sentir que a luz das estrelas é o prémio q mais cedo ou mais tarde irei reclamar...
Luis V.

quarta-feira, agosto 02, 2006

A tua ausência

A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.


mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar


José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão

Foste eterna até ao fim

Devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgávamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
e idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.
José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão

O «para quê?»


A grande obsessão do homem é dar um sentido à vida. (...) O para quê é a pergunta obsessiva depois de tudo o que perfeitamente lhe respondeu. Mas não se responde para calar uma pergunta e sim para lhe dar tréguas e ela poder erguer-se outra vez. Porque perguntar é abrir a distância que está sempre em nós.
Vergílio Ferreira, Pensar

segunda-feira, julho 31, 2006

Uatu

Olhar que tudo toca sem sentir. Não se deixa envolver pelos sedutores véus da paisagem nocturna. Plana sobre o ruído difuso, respira o ar abafado, mas não se deixa contagiar, não se permite fazer parte desse mundo de encantamento e mistério. Mas ainda que no seu intimo anseie ser pedra não deixa de sentir que nesse pairar sobre a multidão encontra mais do que espera, é superado pelo turbilhão. Algo que lhe é roubado e devolvido. Algo parece insistir para que não permaneça mudo quando apenas pode observar.
Uatu. Pacto de inércia. E eis que os humanos invadem o seu peito com gestos e danças que lhe arrancam as lágrimas à força. Persistir é comovê-lo.
Uatu nunca soube aceitar a sua condição de vigia. Um pequeno sopro e o pacto é quebrado. Aquele pequeno segredo guardado abriu o lacre que dissolveu no vento.
Uatu agradece em silêncio do brilho que cintila do fundo negro dos seus olhos.
Luis V.

domingo, julho 30, 2006

Fortaleza


No mais recôndito de mim, último reduto, fortaleza de ser, nesse abrigo de todas as trovoadas e tempestades, perco-me ainda nesse olhar cintilante, abraço morno e meigo, sorriso de ternura e carinho. Condenado a essa clausura do meu sentir, porta fechada para todo o pensar e agir, barreira impenetrável que asfixia todo o passar para o lado de lá. Mesmo sem ar, vive, e mesmo assim brilha. Mesmo assim refulge, dança em pontas de pés, arde, queima devagar. Acorda-me em segredo pelo meio da noite, vem ao de leve sussurrar-me ao ouvido, atira-me para lá dos meus sonhos. Poder fechar os olhos, poder sonhar. Poupar ao peito mais este encantamento. Poder ser surdo para este gritar. E... Amputar ao vento o bater contra os rostos? Mutilar a chuva que torrencialmente nos enche as lágrimas? Dissolver os fios da aurora para não mais os sentir espreitar por entre as portadas das janelas? Acordar é... respirar.
Luis V.

Como o ar

Porque o cansaço que te invade e toma conta dos teus membros, é reflexo da força com que invadiste o mundo até este momento. Como o ar que se inspira para a seguir expirar.
Luis V.